O reconhecimento é a véspera da ingratidão
- Marcelo Sando

- há 3 horas
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Atuar no terceiro setor por mais de duas décadas ensina muito sobre pessoas, relações e expectativas. Ainda assim, algo continua chamando atenção que é a dificuldade de reconhecer o trabalho de quem atua em prol do coletivo.
Quem vive o dia a dia das entidades sabe o que isso significa.
Organizar eventos, estruturar pautas, cuidar da logística, pensar na experiência do participante, prospectar oportunidades, elaborar projetos, atrair eventos e representar destinos exige tempo, preparo, responsabilidade e dedicação contínua.
Nada disso acontece por acaso.
É importante lembrar que esse trabalho é realizado por duas frentes complementares, dos dirigentes e conselheiros que atuam de forma voluntária, conciliando suas atividades profissionais com a gestão institucional, e equipes técnicas remuneradas, que executam as ações e dependem do apoio dos associados para sua remuneração e recursos para entregar resultados consistentes.
Um bom exemplo desse esforço coletivo e fundamental para viabilizar ações de promoção, captação de eventos, qualificação do destino e fortalecimento da imagem turística é o room tax, contribuição voluntária dos hóspedes e repassada pelos hotéis associados ao Convention e Visitors Bureau de sua região.
Trata-se de um investimento da iniciativa privada, no “bem receber”, que retorna em forma de competitividade, visibilidade e desenvolvimento econômico.
Ainda assim, nem sempre esse trabalho é compreendido em sua real dimensão.
Muitas vezes, o foco se desloca do valor gerado para uma desconfiança infundada sobre interesses individuais. Esquece-se que, no terceiro setor, grande parte das iniciativas só existe porque pessoas decidem ir além, doar tempo, energia e reputação para que algo aconteça.
O paradoxo das entidades é que quando nada é feito, critica-se a inércia,
quando alguém faz, questiona-se a intenção e quando o assunto é investir (porque sem verba, não tem verbo) poucos estão dispostos a assumir a responsabilidade.
Organizar pessoas, construir agendas relevantes e fortalecer destinos exige visão, articulação e compromisso. É um trabalho contínuo, silencioso e, muitas vezes, pouco reconhecido. Mas essencial.
Talvez o maior desafio seja resgatar a capacidade de reconhecer o esforço do outro, compreender o valor da contribuição coletiva, do "associativismo" e apoiar para que os profissionais possam exercer seu trabalho com dignidade e propósito.
No fim, o reconhecimento não deveria ser a véspera da ingratidão, mas o ponto de partida para relações mais maduras, colaborativas e conscientes.
Afinal, quem constrói pontes raramente aparece nas fotos, mas sem elas, ninguém chega a lugar algum.
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